Era hoje.
Não consigo pensar noutra coisa. Talvez eu seja demasiada masoquista ao tornar os dias tão importantes para mim, mas era hoje.
Nunca vou esquecer esta data. E se alguém me perguntasse à uns anos atrás se iria ser feliz hoje, eu diria que sim com toda a certeza do mundo. Saberia com quem estaria, como me sentiria, como festejaria. Hoje era o dia.
Eu sei que a mudança é algo incontrolável. De ano para ano cresci, mas eu tinha tanta certeza. Talvez por sonhar tanto e por ter tantas expectativas.
É um dia bom porque me tornei eu outra vez, sem ter que dar nada a ninguém. Voltei a ser da mesma forma e a olhar para mim em primeiro lugar. Isso faz com que não tenha vontade de chorar. Já não choro à dias, será bom não deitar para fora todas as frustrações? Afinal hoje era o dia em que deveria chorar. Mas hoje é o dia em que me sinto neutra. E faz-me triste não sentir, será que faz algum sentido?
Hoje vai ser um pouco clichê, vou comer gelado até me fartar, ler um romance até o finalizar. E que ironia: o livro que tenho na minha mão aberto na primeira página no primeiro capítulo tem o nome de : "O dia em que te esqueci"...
Não digo que já chegou a esse dia, porque a verdade não é esta de todo. Mas então mudarei para o dia em que percebi que terei de te esquecer.
Acho que passar este dia sem um sinal de afeto me acorda para a realidade, por mais que ultimamente eu tenho fugido dela. Não fiquei em casa nenhum dia a lamentar, tentei todos os dias seguir a minha vida, mas mesmo que me pareça ter sido naturalmente, será que o foi?
Hoje é o dia que pensei que iria chorar, perder-me numa imensidão de lágrimas que me escorreriam pela cara e terminariam em qualquer parte do meu corpo, sufocando-me pela libertação da dor.
Mas hoje, não sinto. Tenho medo que apenas tenha criado um escudo, uma ponte em que percorrem todos os sentimentos maus e que se acumulam em alguma parte do meu cérebro, sem nunca chegar aos meus olhos. Serei assim tão fria? Foi assim que me tornei? Tão longe de sentir...
Este escudo poderá esconder tudo mas e se rebentar?
Tanta pergunta sem resposta...
Sinto-me totalmente mal pela resposta que lhe dei de madrugada. Como "A prioridade sou eu", sem me aperceber de que dia é hoje. Disse-lhe que o apoiava por escolha. Isto não se diz... E logo neste dia, em que ele me procurou para o apoiar dos sentimentos que a nossa separação lhe causou. E por ser este dia.
Foi quando me respondeu "Secalhar eras mesmo tu que vestias as calças xD" nem me apercebi de que estava a agir sem sentimentos, com frieza, sem amor.
Talvez tenha bloqueado tudo para não sentir. Ou talvez tenha já sofrido tanto por antecipação que amenizou a dor... Ou talvez só não queira ter de te tentar "esquecer à viva força, como quem arranca as crostas de uma ferida que ainda não sarou." (Palavras da primeira página do livro, não minhas...).
Não sei o que seria melhor, deprimir em casa no meio de tantas lágrimas, a dor na alma que a separação e o desgosto me provocou ou estar como agora, desviando-me da realidade, sem sentir, ser fria ao ponto de não me deixar ir abaixo. Será que não serei capaz de sentir por não tocar na ferida?
É nestes dias que tenho saudades de lágrimas, sentir faz bem, chorar limpa-nos a alma, levando todo o sentimento mau... tenho saudades de quando parava de chorar, depois de tantos soluções, gritos, dor... Adoro o momento de limpar as lágrimas. Ilumina tudo e descomplica o complicado. Simplifica os meus pensamentos e decisões, torna-me uma pessoa segura do que quero, tal como se tivesse fora dos efeitos de droga que damos pelo nome de "amor".
Serei eu que não me permito sofrer? ...será realmente um escudo que criei? Que ao não pensar nem relembrar, tornando-me fria, sem arrependimentos, sem sensações? Cada vez mais me sinto como um robô do que como uma pessoa. Mas também não devo agir como se é aceite pela sociedade, não faço parte de médias nem do geral. Não tenho de sentir a dor só porque acabou, pelo menos sentir da mesma maneira, ou tenho?
Sou eu, a agir da minha forma, suportando um desgosto de amor, talvez mais tarde expluda numa imensidão de lágrimas que me faça hiperventilar, com a melancolia, saudade e arrependimento que me raspam a ferida sem sequer esta ter curado.
É a minha maneira de suportar.
No entanto estou triste, tal como acabei a conversa com ele nesta madrugada quando me apercebi que dia era hoje...:
"... Eu sei que dia é hoje e custa
Desculpa pelo que disse ..."
E nunca mais deixei de o saber. Ainda sei que aconteceria hoje se me perguntassem à uns atrás.
Porque... Era hoje.
Jessica Pera
19:05
06.07.2015
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