40 dias mãe, 40!
Devias estar aqui comigo, a não me deixar dormir por quereres conversar...
Tenho saudades disso.
Devias estar aqui a ajudares-me a entrar à socapa para o pai não saber que cheguei tão tarde.
Devias estar cá, comigo.
Ias estar orgulhosa de mim, vou trabalhar amanhã outra vez, tenho andado responsável, tenho tentando.
Mas queria-te aqui.
Ainda não tinha sido capaz de deixar isto sair apenas do pensamento, tem sido difícil, sabes que sou a mais forte das três.
Faz-me bem falar contigo.
Tudo o que te contei no cemitério tem-me ajudado a tentar compensar a falta que me fazes.
Não sei como reagir com o facto de nunca mais poder chamar de mãe a alguém! És única, tu bem sabias.
A pulseira que tinhas com pérolas anda todos os dias comigo para qualquer lado, só para te sentir mais presente.
Mãe... Mãe.
Tenho saudades de receber uma resposta ao repetir este nome.
Tu ias ficar orgulhosa, só nos deixaste quando achavas que não precisamos de ti, quando estávamos mulheres formadas e com rumos.
E obrigada, por tudo, por todos os meus vinte anos! Sei que fazias tudo por mim, pelas ruas meninas.
O natal custou mais mas fiz como querias, passei com a tua parte da família e o pai. Mas acabou cedo, já sabes como é... Lançamos dois balões brancos com um néon, tu viste? Chegou até ti?
O que me dá paz é saber que já não estás a sofrer, não sofres mais! E obrigada por teres esperado pelos teus últimos momentos por nós, para estarmos ao teu lado... Essa parte custou e ainda dói na garganta, custa a desprender o nó que se formou. Foste com tempo e deixaste-nos despedirmo-nos enquanto ainda estavas quente, é bom lembrar-me dessa sensação...
Já escolhemos a fotografia da campa, foi difícil mas conseguimos, estavas linda. Ainda vias nessa altura, se visses agora ias adorar.
Nunca tinha perdido ninguém, é injusto teres sido a primeira, é injusto ter sido das tensões com tantos problemas, é injusto não ter podido falar contigo antes e é injusto não me lembrar do teu sorriso agora...
Ainda tenho um vídeo que estou a dar a papa à Matilde e consigo ouvir teu riso, a tua voz!
Tenho visto as tuas fotografias, inúmeras vezes... Porquê que temos fotografias tuas que eram da avó? Tu bebé, o teu batizado, escola, comunhão, tu com a minha idade mais ou menos. É difícil saber que só coisas que tu sabias nunca mais te posso perguntar, devia ter feito mais perguntas. Devia ter aproveitado melhor a tua última semana, mal estive contigo.
Mas sei que estavas linda, disseram-me, e que conseguiste ver as pestanas da Matilde, é tão bom teres um último dia feliz e bem. Isso dá-me alguma paz. Algum conforto.
Gostava de te mostrar os meus filhos um dia, de que fosses ao meu casamento, de te apresentar com quem quer que ficasse. Gostava da tua opinião, tinhas sempre razão sobre toda gente...
Não tenho conseguido ir ao cemitério, é difícil com o horário da faculdade, odeio isso, adoro conversar contigo quando lá vou enquanto fumo o meu cigarro. Não é fácil falar sem te ver, é vazio, mas a Cátia mete sempre uma fotografia tua no telemóvel dela, só enquanto não metem mármore.
Adoro sonhar contigo, quase te sinto, parece um sinal de que estás feliz, onde quer que estejas.
Dói saber que não estás aqui.
Devias estar aqui comigo.
Mais um dia...
09.01.2016
5:45

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